
Há não muito tempo atrás, no site Ônibus Legal (excelente site do meu colega André Neves, que fala de maneira bem humorada e crítica sobre o nosso transporte coletivo - falarei sobre esse assunto mais tarde), tive uma discussão com um cavaleiro lá de Nilópolis, o André Luiz, sobre a depredação/queima dos ônibus que circulam em, sua maioria, nas áreas suburbanas do Rio (é, se fosse em Sampa, seriam "periféricas" =D). Num determinado momento da discussão, ele disse que a solução para o "poder paralelo" seria : "bandido tem q (sic) tomar tiro mesmo e ir para a vala". Parafraseando-o, no mesmo post ele me insinuou como "defensor dos bandidos, e por isso bandido também" e disse que "tenha seu amigo morto só por estar com a carteira de policial".
Respeito sua opinião, André Luiz. Só que esta parece estar inserida na lógica da guerra declarada, ou seja, se você não nos defende por argumento x ou y é porque, forçosamente, você apóia o inimigo que visa combater. É o subalterno obedecendo cegamente à ordem de seu superior, mesmo que essa ordem ofereça riscos para si e para seus companheiros. Já tive parentes que sofreram algum tipo de violência na rua (um tio meu, no qual uso o computador dele agora, já foi assaltado três vezes ou mais). Eu sou sim contra essa "farra da bandidagem" que vemos nas nossas ruas. Porém, vale refletir: será que o mesmo meliante que assalta transeuntes, ônibus, bancos e rouba carros também, necessariamente, trafica armas e drogas (ou melhor dizendo, fabrica ou traz pra cá), pede dinheiro no sinal, joga aquele detergente diluído nos nossos pára-brisas (deixando-os mais sujos ainda), estupra mulheres, abusa crianças e etc.? Ou melhor dizendo: ele constitui um inimigo organizado, coeso e poderosíssimo, com regras e ideologia próprias, pronto para nos liquidar e tomar o Estado de Direito para si?
Em essência, vários podem estar enquadrados em mais de uma "modalidade" das que eu listei. Porém, vale lembrar que quem produz esse tipo de pessoa, no geral, é a própria sociedade. Por mais que os jornais e a TV falem que o Rio está literalmente em guerra, isso não é guerra, por mais que possa parecer. É a sociedade da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país e quiçá do nosso mundo na sua forma mais grotesca de decadência moral, fruto dessa política mesquinha que alguns denominam "neoliberalismo" mas coloco como "neolibertinagem". É a sociedade que coloca a pessoa boa como "otária" e a de mau caráter, mesmo que implicitamente, de "esperta". A sociedade que, através dos meios de comunicação de massa, apela 24h por dia para comprar, comprar e consumir, e que coisifica o próprio ser humano. A TV que apela para comprar o brinquedo, o carro ou o celular é sintonizada tanto no Alto Leblon quanto no Complexo do Alemão (ou como diria um professor meu da universidade, em SC e SC - São Conrado e Senador Camará).
E é claro que, se esse estado de medo e pânico se perpetua, é porque alguém se beneficia ou fatura com isso. Esse alguém é, em essência: os magnatas da mídia (mídia que lucra com a própria exploração comercial da ''guerra", ainda que condene-a - vide os jornalecos de baixíssimo nível, como um tal "Meia Hora", pertecente ao grupo O Dia), as indústrias de armamentos (pois é: mais confrontos, mais necessidade de armas e munições, mais vendas; vale lembrar que o prédio onde sedia uma importante editora, que publica a revista mais lida do país, fica num terreno de uma indústria de armas; não por acaso, na época do Referendo em 2005, essa revista pubicou uma edição cuja matéria de capa defendia explicitamente a continuação da fabricação e do comércio de armas, o famoso "NÃO" - que acabou vencendo; o principal argumento dos eleitores do "NÃO", defendido pela revista, foi justamente a idéia de que "não adianta desarmar o cidadão de bem se não desarmarem os bandidos")
É, em suma, a indústria da paranóia e do medo. Segundo a linha de "pensamento" do medo, nosso grande inimigo, fortemente armado e coeso, está única e exclusivamente na favela. Temos de acabar com ele, não? Como eu disse há uns tempos atrás lá no Orkut: vamos acaber de vez com a violência. Exército nas ruas, botando seus fuzis na cabeça de quem bem entender. Aviões da FAB bombardeando as favelas. Explodir todos os presídios (com os presos dentro, é lógico). Prendendo e matando todo mundo que olhar torto para a polícia ou para as Forças Armadas. Quem passar dessa linha vai ter sua cabeça explodida. Vamos aprisionar os favelados em campos de concentração, e caso um cidadão de bem seja covardemente morto pelas forças do mal, praticaremos a Solução Final contra eles. Nada de habeas corpus e o cacete a 4 que esse povinho dos direitos humanos adora falar. Chumbo de HK-G3 neles também.
Pronto. Acabamos com a violência. Agora temos medo do Estado, mas é menos pior do que ter medo dos bandidos.
Ou então, uma solução mais simples: educação pública de qualidade, comprometida a formar cidadãos, produzir tecnologia e competitividade e mudar a mentalidade das pessoas para melhor. Solução mais barata, com certeza. Mas não dá tanta audiência nem tiragem de jornal, parafraseando a música da Classe Média. Nem dá tanto lucro para as indústrias de armas, ou para os traficantes de drogas (digo os chefões, aqueles que controlam a produção e transporte das drogas e que não moram em comunidades. Exemplo: o éter, produto químico fundamental para a produção de cocaína, é fabricada em sua quase totalidade pela grande indústria farmacêutica; sabiam disso?). Nem dá tanto prestígio para os políticos.
Caminho difícil? Sim. Mas um dia isso tem de mudar.
4 comentários:
Muito bom Lorram, essa é a idéia mesmo, seu texto e seu argumentos estão de acordo com tudo o que vivemos hoje em dia. Você tá escrevendo muito bem em meu amigo!
Continue assim, sempre!
Abraços!
Lorram,
Estou estupefato!! Pelo fato de sua argumentação ser tão eloquente e bem exposta. Fico feliz em ver que existem pessoas que fazem História com uma visão sociológica. Parabéns pelo excelente texto. Abraços.
A solução é mesmo a educação.
Porém não investem na mesma...os que estão "no controle" da situação e lucrando para eles não vale a pena.
Realmente não sei como haveria uma mobilização para que a educação fosse pra frente assim finalmente desenvolvendo uma solução para muitos problemas nesse país...
Pqp, to impressionado, você retratou com intensa realidade como a nossa "maravilhosa" classe média do qual nós fazemos parte "pensa".
*Sou amigo do Leandro Parejo, que estudou com você na Veiga de Almeida, estou começando história agora na PUC"
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