quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Duque de Caxias que nós vivemos e queremos




Imagine você, morador de qualquer cidade mediana, num ônibus. Você sai da cidade do Rio de Janeiro, atravessando um rio - na verdade, uma galeria de esgoto a céu aberto. Pouco depois, você encontra, à sua esquerda, uma imensa piscina de esgoto, ladeada por casebres e puxadinhos. Lixo acumulado em paredes e esquinas. Usuários de crack abordando motoristas, à procura de algo para fomentar seu vício. Desembarca num projeto de terminal rodoviário, sujo e fedendo a urina, cujos arredores são repugnantes. Agora, imagine esta cena à noite: boa parte dos pontos de luz está queimado ou funciona mal. Pega um outro ônibus num local estranho, mal iluminado e vizinho a uma favela perigosa. Se a primeira impressão é a que fica, sua impressão é a pior possível. A vontade é de sair do local e nunca mais voltar.

Seja benvindo à oitava cidade mais rica do país: Duque de Caxias.


Essa cena que eu descrevi é a pontinha do iceberg da situação vivida por nossa cidade. Tudo bem, PIB não é proporcional à qualidade de vida. Assim fosse, São Paulo seria a melhor cidade do país para se viver. O que eu digo é que Duque de Caxias, queira ou não queira, já é uma cidade importante no mapa econômico nacional. Só que seus administradores e legisladores, historicamente, representam o que há de mais ultrapassado, de mais anacrônico, de mais nocivo à democracia. Nada melhor personifica a nossa liderança política típica que o saudoso Natalício Tenório Cavalcante de Albuquerque, que com sua capa preta e sua metralhadora Lurdinha, mandava, desmandava e escrachava em Caxias, ao mesmo tempo que se legitimava pelo seu prestígio por parte da população pobre e migrante, através do clientelismo e da construção de sua imagem como um político com "cheiro de povo", embora de povo, há muito tempo, só tinha o cheiro - e olha lá. Lembra algo hoje?


Pois é. Uma economia próspera e em crescimento e políticos que se legitimam através da exploração da miséria e da boa-fé do povo. Um dia, esse paradoxo iria cheirar mal. E o cheiro está começando a ficar insuportável (e não falo somente do lixo nas ruas de nossa cidade).


Outra explicação para o buraco negro que separa Duque de Caxias das cidades em situação econômica e populacional análoga a ela talvez resida na própria construção da nossa cidade quanto à sua geografia e formação populacional, que é comum às suas vizinhas. Nossa cidade, como todos sabem, é composta por sua matriz, em grande parte, de migrantes pobres vindos de várias partes do país. Pouquíssimas gerações separam esses migrantes da nossa população atual. E esses migrantes se instalaram em razão de um grande referencial: a cidade do Rio de Janeiro. Imaginem: uma população migrante, pobre e desamparada, que tentava ganhar a vida na cidade grande e só punha os pés em Caxias para dormir. Que identidade essa "cidade" construiu, à sombra de uma das mais famosas cidades do mundo? Como você vai lutar por um lugar pelo qual você não se identifica?


Por essa época, Duque de Caxias ganhou um grande apêndice econômico, a Refinaria Duque de Caxias (REDUC) e, de brinde, a vedação do direito de escolher seu prefeito por um bom tempo, uma vez que, em nome de uma suposta "segurança nacional", os milicos escolhiam a dedo outros milicos para tentar governar essa triste amálgama de gente carente. Vale se lembrar que a mão-de-obra especializada (qualificada, bem diferente do contingente populacional caxiense) morava bem longe daqui - e com razão. Caxias era a cidade onde as galinhas ciscavam para frente e se matava gente que as roubavam (vide Pedro Capeta, Mão Branca e congêneres). Após a abertura, finalmente voltamos a ter o direito de escolher nossos governantes... Porém, decepção após decepção, a impressão era a de que Dallas City era uma terra sem futuro.


Até que...


Chegou um senhor grandalhão e de fala grossa, de maneiras más e fama igualmente, cuspia e arrotava em público para lembrar a sua origem humilde e comum a de outros centenas de milhares de conterrâneos. Seu "cheiro de povo" sublimava sua aliança política com o então prefeito, um médico idoso e doente que não governava mais nem seu aparelho digestivo. Ao chegar ao governo, tenta colocar na cidade algo que lembra civilização: limpa ruas, ordena camelôs, manda guardas orientarem o trânsito e, mais tarde, asfalta centenas de ruas (sem redes coletoras de esgoto, pois "é do Governo do Estado") e constrói dezenas de pracinhas coloridas que fazem qualquer urbanista vomitar. Investimentos chegam, dando a Caxias um ar mais digno e, de quebra, mitigando um pouco a má fama que a cidade sempre teve.      


Com o sucesso e a reeleição, o poder subiu à cabeça do cidadão, e este começou a fazer muita besteira. Não fez seu sucessor e, quando voltou, seu estilo de governar não correspondia mais às necessidades da cidade e da sua população. Muita coisa mudou nesse meio tempo. A população da nossa cidade, de modo geral, já não é aquela população miserável de anos atrás. O poder aquisitivo melhorou (a famosa "classe C" do apedeuta), novas expectativas sobre o que ela quer para seu futuro surgiram. Mais do que ter "cheiro de povo", é necessário que o governante se adapte às mudanças e às vicissitudes. O que ele fez no passado não vai preservar seu prestígio, principalmente em relação ao eleitor mais jovem. E o pior aconteceu: Caxias voltou a ser a terra da vergonha - uma cidade com uma receita anual de R$ 2 bilhões, vizinha à nova Cidade Olímpica, que não consegue nem recolher o lixo e limpar as ruas. Algo inverossímil, mas é a realidade que nós duquecaxienses vivemos e sentimos.


Para mudar essa situação, precisamos que nós participemos ativamente da vida pública de nossa cidade e escolhemos governantes e legisladores que realmente tratem as questões sérias e estabeleçam planejamento, prioridades e metas. Notem que a maioria dos nossos postulantes a vereador se apresentam com nomes do tipo "Zé da Funerária", "Tia Fuzileide", "Jão da Peixaria", muitos analfabetos funcionais que no entanto insistem em levantar a bandeira da "çaúdi i inducassão" e fazem lembrar a triste mazela de que a política no Brasil se faz à base de graçolas. Fora isso, não elegemos um "salvador". Elegemos alguém que, assim espero, governe de maneira gerencial e democrática e que tenha a sua base através do diálogo e do respeito ao ser humano. E é isso que a nossa cidade precisa: acabar com o clientelismo, o patrimonialismo, o fisiologismo e tantos outros "ismos" que fazem a nossa cidade economicamente tão rica ser ao mesmo tempo tão pobre de virtudes. Ter um projeto de cidade, uma cidade para nós e para as gerações vindouras. E a Internet tem papel fundamental nesse processo de conscientização política.


A escolha é única e exclusivamente nossa. Não vamos enterrar anos de descaso e desmandos apenas num digitar de urna. Mais do que nunca precisamos escolher em qual das duas Duque de Caxias queremos viver: ou numa cidade rica, próspera e dinâmica ou numa cidade condenada à pobreza, ao atraso e à ignorância.


O transporte público de Duque de Caxias - Muito além das tarifas caras




Há um mês atrás, quando a Prefeitura autorizou o aumento das tarifas de ônibus (que já deveriam ter sido reajustadas desde o início do ano, em função da inflação no período), vieram as costumeiras correntes no Facebook demonizando a figura do prefeito em função do aumento. Tudo bem, mas há algo que vai muito além disso. Se o prefeito autoriza o aumento da tarifa, não é necessariamente porque ele é malvado e, junto com os empresários do setor, quer ver o povo sofrer por puro sadomasoquismo. Por trás do preço das tarifas - de fato, desproporcional - há uma série de complicações políticas e operacionais, vindas de um modelo de transporte público que é completamente ultrapassado para as necessidades da cidade e da nossa população.

Primeiramente, Duque de Caxias não é uma cidade plantada no meio do nada. Fazemos parte de uma aglomeração urbana de mais de 10 milhões de habitantes - o Grande Rio -, onde os limites municipais são muito mais políticos do que físicos. A maior parte das linhas de ônibus que circula aqui são intermunicipais. É impossível pensar numa política de transporte público sem levar em conta essa característica, assim como também é impossível que não haja diálogo e objetivos claros e em conjunto a serem seguidos pelas autoridades estaduais e municipais. Daí, partem-se incongruências graves.

Não existe nenhum motivo especial para que cada linha Centro-Distrito (Xerém, Saracuruna, Nova Campina etc.) tenha duas variantes - uma via BR-040/Maracanã (municipal) e outra via Lote XV (intermunicipal/DETRO), sendo que as segundas geralmente vivem vazias, gastando combustível e ocupando espaço desnecessário nas vias onde passam. Os custos operacionais de manter linhas deficitárias são passados, é claro, para o passageiro. É dessa forma que o morador de Xerém paga R$ 4,80 para ir para o Centro de seu próprio município enquanto o mesmo desembolsa R$ 2,95 para ir para Nova Iguaçu. Não existe um estudo de custo e fluxo de passageiros de forma a racionalizar as tarifas e torná-las justas ao bolso do usuário. As coisas se mantêm porque "sempre foram assim".

Itinerários bizarros são uma constante. Basicamente, estes são montados segundo a boa vontade dos empresários, como se eles fossem donos de uma atividade comercial (como uma padaria ou um restaurante) e não delegados de um serviço público que necessita ser regulado. Não existe ou nunca foi levado a conhecimento algum estudo sobre a dinâmica de passageiros que circulam nas linhas, os pontos de demanda e os itinerários dos mesmos. Temos excesso de linhas que abarrotam as ruas estreitas do Centro enquanto ligações perimetrais (bairro-bairro, sem passar pela região central) são pouquíssimas. O passageiro que quiser ir do Parque Beira Mar para a Vila São Luiz, bairros que distam pouco mais de um quilômetro em linha reta, são obrigados a pegar uma linha (a saber, 07 - Beira Mar x Santa Lúcia) cujo itinerário, sem necessidade, cruza vias congestionadas como a Av. Brigadeiro Lima e Silva.




Outro problema grave é a DESINTEGRAÇÃO entre os modais de transporte. Soa absurdo, aos olhos civilizados, como estações de trem como as de Gramacho, Saracuruna e do próprio centro não têm linhas nem terminais de integração. Não há qualquer tipo de hierarquização. "Terminais" de ônibus, como o do Shopping Center, são um maravilhoso cartão de visitas para uma cidade falida. Dentro da pretensão de que transporte público é um comércio, logo, deveria haver, nas mentes reacionárias que o gerem, concorrência. Só que hoje, 2013, a concorrência não é dos ônibus contra os trens, ou contra o transporte "alternativo". São todos contra os carros populares financiados em 60x ou das motos chinesas a 3 reais por dia. A frota de veículos particulares de Duque de Caxias aumenta a olhos vistos, mesmo que a nossa infrestrutura viária seja a mesma da época das carroças. O cidadão comum sabe que tornou-se muito mais econômico e benéfico ter seu pé-de-boi do que perder grande parte do seu dia dentro de um ônibus a custo de um preço absurdo, mofando 40 minutos no ponto debaixo de um sol quente e tendo que dar explicações para o chefe em razão de imprevistos não tão imprevistos.

Se o atual prefeito quiser marcar o seu nome como uma liderança política de fato, vai ter, sem saída, que fazer seu dever de casa dentro do contexto. Vai ter que usar de seu talento como mediador junto ao Governo do Estado, ao Poder Legislativo e aos empresários do setor e trabalhar junto a um corpo técnico apropriado - consta-se que ele encomendou um projeto de mobilidade urbana à Coppe-UFRJ, o que é uma boa notícia; porém, há de se por se isso é realmente algo sério na medida em que gere resultados verdadeiros. Algo tem de ser feito. Duque de Caxias ruma ao colapso devido a sua flagrante falta de planejamento urbano e não dá mais de brincar de faz-de-conta nem implantar medidas de última hora.