quarta-feira, 22 de maio de 2013

O transporte público de Duque de Caxias - Muito além das tarifas caras




Há um mês atrás, quando a Prefeitura autorizou o aumento das tarifas de ônibus (que já deveriam ter sido reajustadas desde o início do ano, em função da inflação no período), vieram as costumeiras correntes no Facebook demonizando a figura do prefeito em função do aumento. Tudo bem, mas há algo que vai muito além disso. Se o prefeito autoriza o aumento da tarifa, não é necessariamente porque ele é malvado e, junto com os empresários do setor, quer ver o povo sofrer por puro sadomasoquismo. Por trás do preço das tarifas - de fato, desproporcional - há uma série de complicações políticas e operacionais, vindas de um modelo de transporte público que é completamente ultrapassado para as necessidades da cidade e da nossa população.

Primeiramente, Duque de Caxias não é uma cidade plantada no meio do nada. Fazemos parte de uma aglomeração urbana de mais de 10 milhões de habitantes - o Grande Rio -, onde os limites municipais são muito mais políticos do que físicos. A maior parte das linhas de ônibus que circula aqui são intermunicipais. É impossível pensar numa política de transporte público sem levar em conta essa característica, assim como também é impossível que não haja diálogo e objetivos claros e em conjunto a serem seguidos pelas autoridades estaduais e municipais. Daí, partem-se incongruências graves.

Não existe nenhum motivo especial para que cada linha Centro-Distrito (Xerém, Saracuruna, Nova Campina etc.) tenha duas variantes - uma via BR-040/Maracanã (municipal) e outra via Lote XV (intermunicipal/DETRO), sendo que as segundas geralmente vivem vazias, gastando combustível e ocupando espaço desnecessário nas vias onde passam. Os custos operacionais de manter linhas deficitárias são passados, é claro, para o passageiro. É dessa forma que o morador de Xerém paga R$ 4,80 para ir para o Centro de seu próprio município enquanto o mesmo desembolsa R$ 2,95 para ir para Nova Iguaçu. Não existe um estudo de custo e fluxo de passageiros de forma a racionalizar as tarifas e torná-las justas ao bolso do usuário. As coisas se mantêm porque "sempre foram assim".

Itinerários bizarros são uma constante. Basicamente, estes são montados segundo a boa vontade dos empresários, como se eles fossem donos de uma atividade comercial (como uma padaria ou um restaurante) e não delegados de um serviço público que necessita ser regulado. Não existe ou nunca foi levado a conhecimento algum estudo sobre a dinâmica de passageiros que circulam nas linhas, os pontos de demanda e os itinerários dos mesmos. Temos excesso de linhas que abarrotam as ruas estreitas do Centro enquanto ligações perimetrais (bairro-bairro, sem passar pela região central) são pouquíssimas. O passageiro que quiser ir do Parque Beira Mar para a Vila São Luiz, bairros que distam pouco mais de um quilômetro em linha reta, são obrigados a pegar uma linha (a saber, 07 - Beira Mar x Santa Lúcia) cujo itinerário, sem necessidade, cruza vias congestionadas como a Av. Brigadeiro Lima e Silva.




Outro problema grave é a DESINTEGRAÇÃO entre os modais de transporte. Soa absurdo, aos olhos civilizados, como estações de trem como as de Gramacho, Saracuruna e do próprio centro não têm linhas nem terminais de integração. Não há qualquer tipo de hierarquização. "Terminais" de ônibus, como o do Shopping Center, são um maravilhoso cartão de visitas para uma cidade falida. Dentro da pretensão de que transporte público é um comércio, logo, deveria haver, nas mentes reacionárias que o gerem, concorrência. Só que hoje, 2013, a concorrência não é dos ônibus contra os trens, ou contra o transporte "alternativo". São todos contra os carros populares financiados em 60x ou das motos chinesas a 3 reais por dia. A frota de veículos particulares de Duque de Caxias aumenta a olhos vistos, mesmo que a nossa infrestrutura viária seja a mesma da época das carroças. O cidadão comum sabe que tornou-se muito mais econômico e benéfico ter seu pé-de-boi do que perder grande parte do seu dia dentro de um ônibus a custo de um preço absurdo, mofando 40 minutos no ponto debaixo de um sol quente e tendo que dar explicações para o chefe em razão de imprevistos não tão imprevistos.

Se o atual prefeito quiser marcar o seu nome como uma liderança política de fato, vai ter, sem saída, que fazer seu dever de casa dentro do contexto. Vai ter que usar de seu talento como mediador junto ao Governo do Estado, ao Poder Legislativo e aos empresários do setor e trabalhar junto a um corpo técnico apropriado - consta-se que ele encomendou um projeto de mobilidade urbana à Coppe-UFRJ, o que é uma boa notícia; porém, há de se por se isso é realmente algo sério na medida em que gere resultados verdadeiros. Algo tem de ser feito. Duque de Caxias ruma ao colapso devido a sua flagrante falta de planejamento urbano e não dá mais de brincar de faz-de-conta nem implantar medidas de última hora.

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